Marcelo Slaviero - Set 15

A Geopolítica da Organização Mundial da Saúde

Por Tullio Damin Da Sois

A Organização Mundial da Saúde (OMS) é somente uma das muitas organizações internacionais existentes, as quais são realidades distantes e muito dificilmente dignas de atenção por parte da maioria da população mundial. Com a pandemia de Covid-19, porém, os holofotes públicos internacionais apontaram diretamente à OMS, que assumiu um papel central no direcionamento do combate à pandemia. No entanto, os holofotes também iluminaram diversas questões relativas à sua estrutura de gestão, levantando sérios e crescentes questionamentos a seu respeito – especialmente quanto às lealdades políticas da organização.

Sob a lei das Regulações Internacionais de Saúde, aplicáveis a todos os países-membro da OMS, os mesmos são obrigados a relatar fielmente surtos de doenças – porém, a organização só pode informar o que os países oficialmente relatarem a ela. Daí, portanto, a dependência da confiabilidade dos relatos oficias de seus membros. O histórico de transparência no provimento de informações de países democráticos gera um alto nível de confiabilidade nesta categoria de regime político, mas sabe-se muito bem que o mundo é composto muito mais por regimes não democráticos, autoritários e totalitários – e a República Popular da China (RPC), país de origem do surto do novo coronavírus, é um deles. A RPC é um regime ditatorial comunista de partido único, totalitário por natureza – e como todo regime de tal tipologia, somente se mantém de pé enquanto possuir base de sustentação interna estável. Esta estabilidade depende de diversos fatores políticos, sociais e econômicos, e um destes é a fixação de uma narrativa política que assegure a confiança dos súditos do regime ao poder estabelecido, enaltecendo as suas qualidades e até mesmo a sua superioridade em comparação com outros regimes políticos. Quanto mais eficiente o controle de informações e a fixação da narrativa, menor é o grau de contestação interna do regime e, portanto, mais estável ele é. Desse modo, contestações ao regime e suas atitudes podem ser consideradas como ameaças ao poder estabelecido, sujeitas à repressão do aparato estatal – inclusive violenta, como no exemplo chinês do Massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989.

Com esses elementos em mente – a lei internacional de saúde e a natureza do regime chinês – entende-se tanto as diversas tentativas de acobertamento do surto de Covid-19 por parte da RPC quanto a estranha defesa e propagação da narrativa oficial chinesa por parte da OMS, por um período prolongado – atraso este que comprometeu seriamente a compreensão da gravidade da situação e os esforços mundiais de contenção e combate à pandemia. Mas este segundo ponto só fica mais claro com alguns fatos a mais sobre as relações entre a OMS e a RPC. Apesar de amplos elogios a seu trabalho como ministro da saúde (2005-2012) de seu país natal, a Etiópia, o atual Diretor-Geral da OMS Tedros Adhanom também foi acusado de encobrir três surtos de cólera enquanto esteve à frente do cargo. Ainda mais preocupante é a proximidade de Tedros com a RPC. Meses antes da eleição à direção-geral da organização, Tedros foi convidado a palestrar na Universidade de Pequim, ocasião na qual clamou por maior uma cooperação na área de saúde entre o sul global e a China. Ainda, o etíope teve pesado apoio diplomático chinês, apoio este construído com base na influência financeira chinesa na organização para a obtenção de apoio dos países em desenvolvimento: desde 2014, a RPC aumentou em 52% suas contribuições orçamentárias, assim como aumentou suas contribuições extra orçamentárias e voluntárias à OMS. Apesar das contribuições dos Estados Unidos da América (EUA) comporem a maior fatia do orçamento da organização, é a RPC que há tempos foca sua política externa na priorização e estreitamento das relações com os países do Terceiro Mundo, investindo pesadamente em projetos de infraestrutura, com destaque para a Ásia Central e a África, com o objetivo declarado de posicionar-se e consolidar-se como líder dos países em desenvolvimento. Não surpreende, portanto, o apoio total da União Africana a Tedros em sua eleição para a direção-geral da OMS.

A proximidade política da OMS e de seu Diretor-Geral à RPC vai mais longe. Logo após a sua eleição em 2016, Tedros confirmou à mídia estatal chinesa que ele e a OMS continuariam a apoiar o princípio de “Uma China” defendido pela RPC. Ainda, ao final deste março, uma rede de televisão de Hong Kong questionou o Assessor Sênior de Tedros, o canadense Bruce Aylward, a respeito do isolamento de Taiwan no combate à pandemia. A repórter questionou Aylward sobre o motivo da OMS não ter dado ouvidos aos alertas de Taiwan sobre a transmissão entre humanos do vírus, e teve a conexão com o canadense imediatamente cortada; na segunda tentativa de contato, o assessor referiu-se vagamente a Taiwan, mas não como uma nação independente, e sim como território da RPC. Como se tudo isso não bastasse, ao passo em que Tedros exaltava a resposta chinesa à pandemia e reforçava a narrativa oficial da RPC, o Diretor-Geral também lançava pesadas críticas aos demais países que adotavam medidas restritivas ao comércio e às viagens internacionais – especialmente direcionadas aos EUA.

Não é segredo – pelo contrário, é planejamento estratégico oficial – que a RPC tem como objetivo ser a maior potência mundial até a metade deste século. Para tal, colossais projetos de infraestrutura como as Novas Rotas da Seda visam aprofundar os laços e a dependência de países em desenvolvimento, principalmente africanos e asiáticos, ao regime comunista chinês. Além disso, há mais de uma década uma ampla campanha internacional de relações públicas da RPC está em curso, com o objetivo de remodelar o sistema internacional e apresentar-se ao mundo como modelo de governança e desenvolvimento. Organizações internacionais como a OMS, portanto, também são territórios de disputa por influência no grande tabuleiro geopolítico global. E, aparentemente, a pandemia de Covid-19 parece ter revelado que a influência chinesa tem mais uma peça do grande tabuleiro em suas mãos.

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